Transição em Família

 

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Quando há cerca de 7 anos disse aos meus pais que estava a pensar mudar de vida (que na altura imaginava ser despedir-me, vender casa e carro e partir para um Ashram indiano em Itália), a sua reacção foi de surpresa e choque. Como poderia eu abdicar de muito do que havia “conquistado” na vida, que até então me satisfazia e parecia ser tudo o que poderia desejar? A verdade é que acabei por não me despedir na altura, nem ir para Itália, mantendo no entanto a aspiração de transformar a minha vida.

À medida que ia aprofundando a minha experiência e o conhecimento sobre este impulso de mudança, ia-lhes explicando o que sentia e as razões que me levavam a querer esta transição. O que no início lhes parecia ser uma súbita falta de “juízo”, particularmente estranha vindo de alguém como eu que sempre fora demasiado “certinho”, aos poucos foi-se revelando como uma necessidade premente que não só fazia algum sentido, como também parecia ser cada vez mais inevitável.

Foi com algum espanto e admiração que, na altura em que eu e a Teresa começamos a procurar terra para nós, eles próprios mostraram também interesse em fazê-lo! As motivações que levaram os meus pais a comprar terra, não foram nem são necessariamente as mesmas que as nossas, mas continua a ser inspirador perceber que também eles procuram a mudança e se empenham em garantir uma outra estabilidade e segurança para o futuro.

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Tal como sempre aconteceu durante toda a minha vida, os meus pais continuam a apoiar-nos de todas as formas que podem, e têm estado sempre presentes quando é realmente importante, continuando a abdicar muitas vezes do seu próprio conforto e bem-estar. Nem sempre o reconheço, e muitas vezes ainda não o demonstro, mas sinto-me abençoado por ter nascido no seio desta família e estou imensamente grato pelo amor incondicional que continuam a demonstrar, e não apenas por nós…

Se há 7 anos pensava que para seguir um “caminho espiritual” teria que abdicar de tudo, mesmo da família e amigos, cada vez mais descubro que esse caminho pode ser vivido com eles, transcendendo e incluindo, explicando e não assumindo, questionando e procurando sempre aquilo que faz sentido na nossa própria experiência, em vez de inconscientemente seguir o que é esperado de nós.  A mudança não só é possível, como não tem quaisquer limites…

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Estamos gratos família, por continuarem a querer percorrer este caminho ao nosso lado!

Amamos-vos muito…

Ricardo Gonçalves

Em cada nova conquista, o potencial para uma nova lição!

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Esta semana instalamos finalmente a chaminé do nosso fogão a lenha, com a ajuda do meu pai, e podemos dizer que estamos preparados para o Inverno! E foi mesmo a tempo, pois o frio já começou a anunciar esta bela estação introspectiva que se aproxima…

Toda esta conquista de “luxos” e conforto, que temos lentamente criado com as nossas próprias mãos na reconstrução da nossa nova casa, tem-me permitido fazer contemplações muito interessantes. Coisas simples e quase banais numa vida moderna, que eu quase toda a minha vida tomei como garantidas (como ter uma casa fechada com portas e janelas; ter água potável a sair pela torneira, sem ser preciso encher o depósito a cada 25 L; ter energia proveniente do sol para acender luzes e carregar baterias; e agora acender um fogão a lenha que não só permite cozinhar, como também aquecer a casa e, num futuro próximo, aquecer a água para o banho), ganham agora um novo sabor, e muito mais valor e apreço, pois em cada uma delas percebemos muito do esforço e determinação que estão envolvidos para que estejam presentes…

Em cada uma destas conquistas, sinto-a não apenas como nossa, mas também da humanidade antes de nós! Aquilo que hoje conquistamos em alguns dias, semanas ou mesmo meses, foi outrora uma odisseia de consecutivas gerações, que em condições muito mais duras e extremas do que nós, foram garantindo um melhor futuro para a sua descendência…

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Cada vez mais usufruímos de novo dos confortos e “luxos” de uma vida moderna, tendo agora bem presente na nossa própria experiência, que uma boa parte da população do planeta ainda está muito longe de possuir muitos ou mesmo qualquer um deles!

É com gratidão, simplicidade, humildade e cada vez mais inspiração que re-aprendemos a viver a Vida, a cada dia, em cada conquista, e convidamos-vos a fazer o mesmo 🙂

Ricardo Gonçalves