Uma semana preenchida…

A semana passada foi uma semana em cheio! Decorreram os workshops da “História do Universo” e as tertúlias no Porto sobre o Projecto Vida em Transição. Confesso que me sinto, e na altura também me senti, abençoada por estar presente nos eventos e pela partilha que estes eventos possibilitam entre seres humanos. Foi muito rico!

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Durante o fim de semana de workshops tive oportunidade de participar no grupo de Viana do Castelo e no grupo do Porto, dois grupos muitos distintos mas foram dois momentos de aprendizagem fantásticos. A vinda da Jane e do Rod a Portugal foi uma dádiva e a forma como eles nos transmitiram os conhecimentos que têm vindo a adquirir com a sua própria experiência foi fantástica. Não se limitaram a desbobinar uma série de conhecimentos ou informações, deram-nos antes “ferramentas” ou pequenas actividades que podem ajudar a “despertar” nas crianças um sentido para algo maior do que elas próprias (eu senti que se aplica igualmente à criança que existe em mim!). Estas actividades fazem-nos questionar, fazem-nos contemplar, fazem-nos parar e ser por momentos, fazem-nos mergulhar na pura e simples vivência do momento…encontrar nas profundezas do agora quem nós realmente somos. O meu espírito encheu-se de alegria ao pensar no potencial que estes exercícios podem ter nos mais novos. É curioso que no meio disto tudo questiono-me às vezes que autoridade tenho para transmitir algo às gerações futuras. Eu posso transmitir todo o conhecimento que adquiri e posso ainda apontar para mais conhecimento que já foi adquirido pelo Homem ao longo dos séculos, mas no fim resta-nos algo mais valioso do que o conhecimento…a sabedoria…e esta ninguém nos pode ensinar…tem de ser vivida, tem de ser caminhada, experienciada.

No caminho da sabedoria não existem regras, nem métodos, nem caminhos melhores do que os outros…cada um tem o seu processo…e cada processo tem de ser respeitado e amado. As crianças e famílias que vierem ao nosso/meu encontro e vice-versa serão os seres humanos que têm de se cruzar comigo nesses momentos particulares da vida para partilharmos algo mutuamente e depois cada um segue o seu próprio percurso e faz as suas próprias sínteses daquele encontro. Da semana que passou ficou essencialmente gravado em mim a partilha…a partilha entre seres humanos que se cruzaram num dado momento.

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Todos os dias agradeço a oportunidade que me é dada para continuar a poder partilhar mais momentos comigo, com os outros, com a natureza, com os animais, com o universo…no fundo com o Todo!

Ana Fonseca

A minha nova casa

Olá!

É curioso verificar que ainda não escrevi uma única palavra neste blog e no entanto já estou a viver com o Ricardo, a Teresa e o Miguel desde agosto do ano passado. Neste aparente curto espaço de tempo muitas aventuras e desafios têm vindo a acontecer por cá. Já ando há algum tempo para partilhar um dos desafios que passei quando cheguei à comunidade e creio que agora é o momento de o fazer.

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Em agosto do ano passado (após alguma persistência da minha parte, porque ainda não tinham condições físicas para aceitar voluntários) vim trabalhar como voluntária para a comunidade e para o projecto que a Teresa e o Ricardo estavam a começar a construir. Durante os meses de verão e outono estive a viver numa tenda, mas com a chegada do frio acabei por ser acolhida na casa, no espaço onde será futuramente a casa de banho. Pode parecer estranho estar a viver na futura casa de banho, mas confesso que não me incomodou e, aliás, até gostei muito da experiência. O espaço em si era agradável e quente, no entanto não era um espaço onde pudesse arrumar as minhas coisas e instalar-me com outro nível de conforto. Com o tempo o estatuto de voluntária evoluiu de forma natural e consciente para residente e senti então que estava na altura de arranjar um espaço fora de casa para morar.

Foi muito engraçado porque, a partir do momento em que verbalizei a minha intenção de comprar uma roulote ao Ricardo e à Teresa, a roulote veio ter comigo quase por magia. Um amigo nosso tinha vindo ajudar a construir uma casa de madeira no nosso vale e trazia uma roulote onde vivia durante os dias de TRABALHO longe de casa. Ele estava a tentar vender a roulote porque era pequena demais para a família dele e eu estava a procura de uma para comprar. Foi uma daquelas coincidências que continuam a surpreender-me e me fazem confiar cada vez mais no universo.

A roulote tinha sido practicamente entregue em casa e, ao que parecia, estava em boas condições. Era uma roulote antiga e muito bonita dos anos 70. Finalmente decidi-me a comprá-la e após a instalação da mesma no terreno pensei em fazer apenas umas pequenas renovações e pinturas para dar um aspecto mais pessoal e fresco ao interior e ao exterior. Qual foi o meu espanto quando começo a retirar alguns adereços do interior da roulote e vejo que havia partes do perfil da parede que estavam podres. Resolvi então investigar a extensão do problema e quanto mais ia destruindo o perfil mais madeira estrutural, podre encontrava. Continuei a destruir o interior da roulote até que só uma das paredes estava intacta. O chão também estava igualmente podre nas extremidades e em algumas partes parecia um carro dos flinstones (quase que dava para colocar os pés no chão e empurrar 🙂 ). Houve vários momentos durante a fase destrutiva em que me questionava o que estava a fazer. Porquê que me tinha metido naquele processo? Porquê que tinha decidido destruir?

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Tinha chegado a um ponto em que a roulote estava inabitável e só me apetecia pegar na carcaça e enviá-la para o polo norte, para bem longe da minha vista. Este foi um dos pontos mais importantes do processo. O Ricardo e a Teresa ao verem o meu desespero e desmotivação resolveram mostrar-me imagens do processo que eles próprios tinham passado…a reconstrução da casa deles. Ao ver as fotos e tudo aquilo que tinham feito num espaço de tempo tão curto reparei que a minha motivação e força estavam de novo a surgir e voltei a acreditar que era possível, e mais ainda, o quão divertido é estar a fazer algo assim!

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Hoje vejo que a compra da roulote e o facto de ela estar no estado em que estava sem eu saber previamente foi uma dádiva espetacular. Foi um desafio que me foi lançado e que me fez ver muita coisa em mim, fez-me transformar, fez-me crescer, aprender, evoluir. Também me fez ver que aquilo que pedimos realmente acontece (e por isso também é preciso ter cuidado com as nossas intenções e o que realmente queremos porque vêm ao nosso encontro!). Eu antes de a ter comprado dizia que gostava muito de aprender mais sobre construção e como utilizar certas ferramentas porque não me sentia confortável a usar nem uma serra nem um berbequim nem nada disso. Bem…o meu apelo foi ouvido e acreditem que me fartei de usar ferramentas e aprendi imenso sobre materiais e o que funciona e não funciona.

Foi um processo muito bonito porque houve fases em que estava a destruir uma parte da roulote e a reconsturir outra ao mesmo tempo. Fez-me ver que tudo na vida é mesmo assim…a destruição do antigo/velho ocorre para dar lugar ao novo, à criatividade. E tanto a destruição como a construção foram processos igualmente bonitos e poderosos…apenas expressões diferentes. A criatividade estava presente não só na construção como também na destruição, porque eu não podia simplesmente colocar uma bomba dentro da roulote e destruir tudo…tive de destruir de forma criativa e pensada.

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 Todo o processo que estava a passar serviu também para tema de contemplação pessoal e em grupo. Falar sobre motivação, sobre desespero, sobre frustração, sobre falta de energia, sobre o potencial da força criativa, sobre a entre-ajuda, sobre a vitimização, sobre a responsabilidade, sobre o poder de ultrapassar desafios, sobre o desenvolvimento de capacidades para superar os desafios. Este último tópico era constantemente testado. Apercebi-me de uma diferença muito curiosa entre construir e reconstruir. Quando construímos temos a liberdade para usar os materiais que queremos e fazer as formas que queremos, etc. Ao reconstruir também existe um potencial enorme de criatividade mas temos de ajustar essa criatividade às estruturas já existentes. Existe um molde a partir do qual vamos construindo. Digamos que as peças não vêm já direitinhas da fábrica e depois é so montar como os móveis do IKEA. Ali tudo tinha de ser feito à medida, personalizado e único…e a cada tarefa que começava a fazer encontrava logo um entrave porque não existem peças que encaixem na perfeição à primeira…tinha de adaptar…ajustar…arranjar novas formas de solucionar os supostos problemas.

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Foi muito interessante. Muito curioso foi também perceber a minha noção de perfeição. Recordo-me que na minha vida tinha sempre procurado a perfeição (e ainda existe esse impulso em mim) e isso levou-me a desgastes e frustrações muito profundas. Como devem imaginar a roulote nao está construida de acordo com os meus padrões irreiais de perfeição que tinha anteriormente. Tem defeitos, tem moças, tem zonas mal pintadas, tem desníveis, tem tudo e mais alguma coisa, no entanto, agora vejo a perfeição na imperfeição.

A noção de perfeição que tinha não era real…era impossível, era uma projecção de um ideal meramente mental. Vejo agora a beleza nessa imperfeição, e o espaço tem uma outra qualidade…uma qualidade com cunho pessoal…com marcas das pessoas que ajudaram a reconstruir, com a energia e o esforço que foi colocado na roulote.

Esta questão da energia foi também outro tema interessante. Percebi que havia dias em que estava a trabalhar apenas porque tinha de ser, tinha de acabar a roulote o mais depressa possível para poder mudar de casa…sentia-me encurralada e a energia que estava a colocar no trabalho que estava a fazer era pesada e desesperante. Até que percebi que estava a colocar essa energia na roulote e não era isso que eu queria. Não queria criar uma casa pesada e com energia desesperante. Uma mudança de perspectiva ocorreu e passei a focar-me no potencial de transformação da roulote, na felicidade em criar, no prazer de construir e aprender com os meus erros e frustrações, na alegria em sonhar e imaginar como decorar e remodelar a configuração por dentro.

Já estou a viver na roulote desde o início do ano e confesso que as obras interiores e exteriores ainda não estão terminadas, mas agora vou construindo a um ritmo mais tranquilo. É um “work in progress” tal como eu sou um “work in progress” para toda a vida! Vou fazendo um bocadinho de cada vez, mas o que já está terminado está muito bonito e confortável!

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Contar à minha família (particularmente aos meus pais) que estava a viver numa roulote foi também uma aventura interior interessante. Veio provar que tenho realmente demasiadas ideias pré-concebidas do que vai acontecer e olho para os meus pais como seres que não evoluem. Fui surpreendida com a abertura de espírito e apoio que me deram, de tal maneira que a minha mãe até quis fazer as cortinas para a roulote. “Impossible is nothing”!

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Ana Fonseca

Projeto Vida em Transição no QUINTAL Bioshop, Porto

QUARTA FEIRA 18 DE FEVEREIRO, DAS 21H ÀS 22:30H 
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ENTRADA LIVRE COM INSCRIÇÃO

Local: Quintal, Rua do Rosário, 177 Porto

Inscrições e informações: tlf 222 010 008 ou por email: mail@quintalbioshop.com

Tens sentido vontade de dar o passo rumo a uma vida diferente, mais consciente, mas ainda não tiveste coragem ou não sabes como o fazer? O Ricardo, a Teresa e a Ana mudaram-se da cidade para o campo, mas não mudaram apenas a forma como vivem a vida, estão continuamente a transformar o seu modo de ser e de estar e querem partilhar com vocês a sua história.

Vamos falar sobre o nosso projecto, o que nos motiva, como queremos transformar o mundo, os eventos que vamos ter este ano e como podes participar neles.

Co-Criadores:

Teresa Leite:

Nasci no Porto, e desde pequena que acredito que a evolução é algo que deve ser constante na nossa vida e tem de ser trabalhada diariamente…mas poucas vezes dei ouvidos a esta realidade em mim. Ouvi muito mais o que me diziam, o tradicional e o esperado pelos outros e tentei viver de acordo com isso, procurando cumprir as expectativas impostas pela família e amigos. Desde que decidi viver uma vida diferente sou mais eu, procuro viver sem saber ou controlar o que está á minha volta, procuro não assumir ou ter expectativas sobre os outros, procuro viver no presente deixando de lado a nostalgia do passado e a incerteza do futuro. Procuro viver as minhas relações com o máximo de abertura e honestidade, dando sempre espaço para o que não sei sobre o outro, independentemente de estar a falar dos meus pais, amigos, companheiro, conhecidos ou desconhecidos. Hoje sou muito mais relaxada, vivo no meio da natureza com o meu marido, filho e a Ana e tento fazer apenas aquilo que me faz feliz. E todos os dias tento passar ao meu filho toda esta experiência de transformação de uma forma positiva e motivadora.

Ricardo Gonçalves:

Nasci e vivi quase toda a minha vida no Porto, onde me licenciei em Biologia e trabalhei na área da Genética. Inspirado pelo Projecto Vida Desperta, e dando corpo a uma insatisfação interior demasiado intensa, despedi-me do meu emprego e iniciei uma nova jornada de vida. No início não foi fácil ouvir o que o meu coração almejava, pois estava demasiado habituado a fazer o que era esperado de mim pela família e sociedade, mas após um período de procura e disponibilidade para a mudança, aos poucos o Universo foi-me trazendo luz neste caminho de descoberta! Hoje vivo no campo, com esposa, filho e com a Ana e aprendo todos os dias a viver uma vida mais plena, integral e consciente. Não sei o que me trará o amanhã, mas sinto-me cada vez mais confiante com o desconhecido e entrego a minha vida a uma vontade muito maior do que a minha…

Ana Soares da Fonseca:

Quem sou EU? É uma boa pergunta…Se me perguntassem esta questão há 2 anos atrás eu daria uma resposta muito rápida e cheia de certezas fixas. Descrevia-me em relação às coisas que fazia ou que tinha. No fundo o meu valor dependia de factores e aspectos exteriores. Fui criada numa família católica muito devotada mas desde cedo revoltei e tornei- me o que se pode chamar agnóstica. Após vários anos a viver de acordo com o que seria “esperado de mim” cheguei a um ponto de ruptura e sofrimento que conduziram a um “despertar” espiritual espontâneo de união e de grande alegria e positividade.  Comecei a questionar qual o verdadeiro propósito da minha vida e como podia trazer o “céu” que tinha vivido à terra. O impulso da vida levou-me a encontrar o Ricardo, a Teresa e o Miguel e, após uma experiência como voluntária, acabei por me tornar residente. Tenho um interesse particular pela educação consciente e sinto que é uma urgência mudar a forma como estamos a educar as gerações futuras. Este interesse é também partilhado pela Teresa e pelo Ricardo, o que acabou por começar a dar forma a uma visão que ambos tiveram para o terreno deles –  o que significa viver de forma consciente…o que significa trazer o “céu” à terra…em família.

Sobre o nosso projeto:

Somos um casal que se uniu com o mesmo propósito, o de evoluir todos os dias e de nos transformarmos num homem e numa mulher completos. Quando nos conhecemos não fazíamos ideia de onde poderíamos chegar e de quanto era possível transformar,  mas a verdade é que estamos onde escolhemos estar e somos cada vez mais felizes. Há 2 anos e meio tivemos o nosso primeiro filho e com ele iniciamos uma nova viagem ainda maior de consciência e aprendizagem. Em 2014, a Ana apareceu nas nossas vidas e com a sua vontade de evoluir e criar algo comum connosco, inspirou-nos a convidá-la a fundar o ‘Famílias Despertas’ em conjunto e desde então somos 4.

Contactos
Website – www.vidaemtransicao.pt
Email – avidaemtransicao@gmail.com
Morada – Lugar do Ribeiro – Sem Número
3305-181 COJA

O que significa viver uma Vida Desperta?

 

Recentemente, ouvi um amigo dizer “Não há outro lugar onde preferisse estar, nem outras pessoas com quem viver e, para mim, esse é o verdadeiro significado de viver uma Vida Desperta!” Esse amigo chama-se Pete Bampton e naquele momento estava a fazer um brinde, durante a celebração do seu quinquagésimo aniversário, na presença de queridos amigos. Estas palavras ressoaram em mim de uma forma profunda, como tantas outras que já ouvi vindas deste grande amigo, irmão e mestre…

Este simples e profundo reconhecimento, de que estou a viver a Vida que em consciência escolhi, está hoje mais presente e enraizado em mim. E se por um lado traz consigo um sentido de que é possível realizar os nossos sonhos mais sinceros, por outro traz também uma enorme responsabilidade, pois não deixa qualquer espaço para a vitimização e o queixume, tão endémicos na nossa cultura. Este é um grande passo rumo à evolução, individual e coletiva, pois facilita a aceitação daquilo que não conseguimos mudar, ao mesmo tempo que nos empodera para dar à Vida o rumo que lhe queremos dar. Mas este não é um querer egóico, de alguém que quer algo apenas para si, é um querer mais profundo que transcende a esfera pessoal e que, ao mesmo tempo, nos permite expressar a nossa individualidade mais criativa…

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Para mim, assim como acredito que para tantos outros, sempre foi muito difícil aceitar as minhas imperfeições! E claro está, esta incapacidade de aceitação é extrapolada para os outros, que no fundo são apenas um reflexo de mim próprio. Mas sem essa aceitação, de que sou e sempre serei um “work in progress”, a verdadeira transformação e crescimento estarão sempre limitados por todas as ideias herdadas ou autoimpostas. Sem as “imperfeições” não seria possível a evolução, se tudo fosse já “perfeito” ou “acabado”, não haveria espaço para a mudança, para a criatividade e para o novo. Assim, esta eterna dança na procura de quem realmente somos, é o que nos mantém vivos e entusiasmados, é o que nos permite continuar a sonhar e manifestar um futuro melhor, uma nova realidade, uma narrativa com mais sentido e propósito para todos vivermos…

Desta forma, o meu compromisso para comigo e para com aqueles que me rodeiam, é de aceitar mais, estar mais atento, ouvir mais profundamente a partir de um maior silêncio interno, dar mais sem querer tanto para mim e manifestar cada vez mais aquilo em que acredito! Estou profundamente grato a todos os que me rodeiam, especialmente aos que, juntamente comigo, escolheram estar mais próximos, pois é com eles que todo este “trabalho” de crescimento e evolução tem um maior potencial para se manifestar. E como essa manifestação acontece mais facilmente depois de ser expressa, aqui estou eu mais uma vez a partilhá-lo…

Com amor, inspiração e confiança,

Ricardo