A minha nova casa

Olá!

É curioso verificar que ainda não escrevi uma única palavra neste blog e no entanto já estou a viver com o Ricardo, a Teresa e o Miguel desde agosto do ano passado. Neste aparente curto espaço de tempo muitas aventuras e desafios têm vindo a acontecer por cá. Já ando há algum tempo para partilhar um dos desafios que passei quando cheguei à comunidade e creio que agora é o momento de o fazer.

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Em agosto do ano passado (após alguma persistência da minha parte, porque ainda não tinham condições físicas para aceitar voluntários) vim trabalhar como voluntária para a comunidade e para o projecto que a Teresa e o Ricardo estavam a começar a construir. Durante os meses de verão e outono estive a viver numa tenda, mas com a chegada do frio acabei por ser acolhida na casa, no espaço onde será futuramente a casa de banho. Pode parecer estranho estar a viver na futura casa de banho, mas confesso que não me incomodou e, aliás, até gostei muito da experiência. O espaço em si era agradável e quente, no entanto não era um espaço onde pudesse arrumar as minhas coisas e instalar-me com outro nível de conforto. Com o tempo o estatuto de voluntária evoluiu de forma natural e consciente para residente e senti então que estava na altura de arranjar um espaço fora de casa para morar.

Foi muito engraçado porque, a partir do momento em que verbalizei a minha intenção de comprar uma roulote ao Ricardo e à Teresa, a roulote veio ter comigo quase por magia. Um amigo nosso tinha vindo ajudar a construir uma casa de madeira no nosso vale e trazia uma roulote onde vivia durante os dias de TRABALHO longe de casa. Ele estava a tentar vender a roulote porque era pequena demais para a família dele e eu estava a procura de uma para comprar. Foi uma daquelas coincidências que continuam a surpreender-me e me fazem confiar cada vez mais no universo.

A roulote tinha sido practicamente entregue em casa e, ao que parecia, estava em boas condições. Era uma roulote antiga e muito bonita dos anos 70. Finalmente decidi-me a comprá-la e após a instalação da mesma no terreno pensei em fazer apenas umas pequenas renovações e pinturas para dar um aspecto mais pessoal e fresco ao interior e ao exterior. Qual foi o meu espanto quando começo a retirar alguns adereços do interior da roulote e vejo que havia partes do perfil da parede que estavam podres. Resolvi então investigar a extensão do problema e quanto mais ia destruindo o perfil mais madeira estrutural, podre encontrava. Continuei a destruir o interior da roulote até que só uma das paredes estava intacta. O chão também estava igualmente podre nas extremidades e em algumas partes parecia um carro dos flinstones (quase que dava para colocar os pés no chão e empurrar 🙂 ). Houve vários momentos durante a fase destrutiva em que me questionava o que estava a fazer. Porquê que me tinha metido naquele processo? Porquê que tinha decidido destruir?

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Tinha chegado a um ponto em que a roulote estava inabitável e só me apetecia pegar na carcaça e enviá-la para o polo norte, para bem longe da minha vista. Este foi um dos pontos mais importantes do processo. O Ricardo e a Teresa ao verem o meu desespero e desmotivação resolveram mostrar-me imagens do processo que eles próprios tinham passado…a reconstrução da casa deles. Ao ver as fotos e tudo aquilo que tinham feito num espaço de tempo tão curto reparei que a minha motivação e força estavam de novo a surgir e voltei a acreditar que era possível, e mais ainda, o quão divertido é estar a fazer algo assim!

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Hoje vejo que a compra da roulote e o facto de ela estar no estado em que estava sem eu saber previamente foi uma dádiva espetacular. Foi um desafio que me foi lançado e que me fez ver muita coisa em mim, fez-me transformar, fez-me crescer, aprender, evoluir. Também me fez ver que aquilo que pedimos realmente acontece (e por isso também é preciso ter cuidado com as nossas intenções e o que realmente queremos porque vêm ao nosso encontro!). Eu antes de a ter comprado dizia que gostava muito de aprender mais sobre construção e como utilizar certas ferramentas porque não me sentia confortável a usar nem uma serra nem um berbequim nem nada disso. Bem…o meu apelo foi ouvido e acreditem que me fartei de usar ferramentas e aprendi imenso sobre materiais e o que funciona e não funciona.

Foi um processo muito bonito porque houve fases em que estava a destruir uma parte da roulote e a reconsturir outra ao mesmo tempo. Fez-me ver que tudo na vida é mesmo assim…a destruição do antigo/velho ocorre para dar lugar ao novo, à criatividade. E tanto a destruição como a construção foram processos igualmente bonitos e poderosos…apenas expressões diferentes. A criatividade estava presente não só na construção como também na destruição, porque eu não podia simplesmente colocar uma bomba dentro da roulote e destruir tudo…tive de destruir de forma criativa e pensada.

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 Todo o processo que estava a passar serviu também para tema de contemplação pessoal e em grupo. Falar sobre motivação, sobre desespero, sobre frustração, sobre falta de energia, sobre o potencial da força criativa, sobre a entre-ajuda, sobre a vitimização, sobre a responsabilidade, sobre o poder de ultrapassar desafios, sobre o desenvolvimento de capacidades para superar os desafios. Este último tópico era constantemente testado. Apercebi-me de uma diferença muito curiosa entre construir e reconstruir. Quando construímos temos a liberdade para usar os materiais que queremos e fazer as formas que queremos, etc. Ao reconstruir também existe um potencial enorme de criatividade mas temos de ajustar essa criatividade às estruturas já existentes. Existe um molde a partir do qual vamos construindo. Digamos que as peças não vêm já direitinhas da fábrica e depois é so montar como os móveis do IKEA. Ali tudo tinha de ser feito à medida, personalizado e único…e a cada tarefa que começava a fazer encontrava logo um entrave porque não existem peças que encaixem na perfeição à primeira…tinha de adaptar…ajustar…arranjar novas formas de solucionar os supostos problemas.

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Foi muito interessante. Muito curioso foi também perceber a minha noção de perfeição. Recordo-me que na minha vida tinha sempre procurado a perfeição (e ainda existe esse impulso em mim) e isso levou-me a desgastes e frustrações muito profundas. Como devem imaginar a roulote nao está construida de acordo com os meus padrões irreiais de perfeição que tinha anteriormente. Tem defeitos, tem moças, tem zonas mal pintadas, tem desníveis, tem tudo e mais alguma coisa, no entanto, agora vejo a perfeição na imperfeição.

A noção de perfeição que tinha não era real…era impossível, era uma projecção de um ideal meramente mental. Vejo agora a beleza nessa imperfeição, e o espaço tem uma outra qualidade…uma qualidade com cunho pessoal…com marcas das pessoas que ajudaram a reconstruir, com a energia e o esforço que foi colocado na roulote.

Esta questão da energia foi também outro tema interessante. Percebi que havia dias em que estava a trabalhar apenas porque tinha de ser, tinha de acabar a roulote o mais depressa possível para poder mudar de casa…sentia-me encurralada e a energia que estava a colocar no trabalho que estava a fazer era pesada e desesperante. Até que percebi que estava a colocar essa energia na roulote e não era isso que eu queria. Não queria criar uma casa pesada e com energia desesperante. Uma mudança de perspectiva ocorreu e passei a focar-me no potencial de transformação da roulote, na felicidade em criar, no prazer de construir e aprender com os meus erros e frustrações, na alegria em sonhar e imaginar como decorar e remodelar a configuração por dentro.

Já estou a viver na roulote desde o início do ano e confesso que as obras interiores e exteriores ainda não estão terminadas, mas agora vou construindo a um ritmo mais tranquilo. É um “work in progress” tal como eu sou um “work in progress” para toda a vida! Vou fazendo um bocadinho de cada vez, mas o que já está terminado está muito bonito e confortável!

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Contar à minha família (particularmente aos meus pais) que estava a viver numa roulote foi também uma aventura interior interessante. Veio provar que tenho realmente demasiadas ideias pré-concebidas do que vai acontecer e olho para os meus pais como seres que não evoluem. Fui surpreendida com a abertura de espírito e apoio que me deram, de tal maneira que a minha mãe até quis fazer as cortinas para a roulote. “Impossible is nothing”!

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Ana Fonseca

5 Replies to “A minha nova casa”

  1. Ricardo Gonçalves

    😀 É realmente uma benção ter-te connosco neste projeto de Vida em Transição, que somos todos, e poder partilhar tudo isto que tão bem descreves neste post! Continua a ser uma inspiração para mim a forma como tu te entregas e dedicas a esta grande descoberta que é a Vida. E digo aqui mais uma vez, revejo-me em muito daquilo que escreves, particularmente nos ideais de perfeição, que ainda continuo a aprender a vê-los como aquilo que realmente são, um medo de errar e não correr riscos…

  2. Ângela

    Lindo, Ana 🙂 Essa força e determinação é muita boa 🙂 “Impossible is nothing”! Go on!!!

  3. raquel perdigão

    Adorei ler-te! 🙂 Uma das partes do teu texto que me tocou hoje foi aquela que referes a procura da perfeição. Passei estes últimos 6 dias com o David no Porto a renovar a minha casa. Consegui ver também essa busca da perfeição, mas ao fim de algumas horas do primeiro dia, larguei-a. Porque, como dizes, o importante no meio disto tudo é o processo de reconstrução de algo e que, “por acaso”, é de nós mesmas.
    Mal posso esperar para a festa de inauguração 🙂

  4. Carlos Santos

    Uau Ana! Que inspirador!
    Pelo que li foi um processo e tanto para ti. O que me tocou mais foi teres a percepção do teu relacionamento interno com o decorrer das varias etapas da destruição/construção da caravana. Isso demonstra uma grande maturidade da tua parte.
    hehehe adorei a cena do carro dos flinstones e de deitar uma bomba para destruir tudo. hilariante… tens uma imaginação muito criativa.
    A tua entrega é fantastica.
    Assim como a Raquel estou bastante curioso para ver a tua nova casa 🙂

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