Lotte Kauffman

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Quando um grande navio está ancorado no porto, está a salvo, não há dúvida. Mas não foi para isso que grandes navios foram construídos.

Durante 28 anos o meu porto seguro foi a cidade de Haia na Holanda. Uma cidade que ainda amo muito e que inclui muitas das coisas que eu gosto; uma praia linda, grandes eventos e edifícios culturais, sítios lindos para andar de bicicleta, muitos amigos e uma parte da minha família, um movimento alternativo em transição para um estilo de vida mais sustentável, muitas lojas biológicas e o meu apartamento perto da praia. O meu trabalho também ficava situado nesta cidade. Trabalhei no departamento de educação de um teatro e também trabalhei numa organização ambiental onde preparava diversos projectos para a sustentabilidade da nossa costa marítima.

Embora a minha vida fosse rica de muitas formas, ao olhar para trás, vejo que havia sempre uma tensão subjacente, uma ideia que algo não estava bem, algo que faltava. Uma ideia que ‘’eu não sou suficientemente boa’’ e tenho de procurar a felicidade e boas experiências para me transformar numa ‘’boa pessoa’’. Por boa não quero dizer ‘’honesta’’ mas alguém com autoconfiança no que faz, que tem uma ‘’grande’’ vida, que os outros valorizam. Eu sempre tentei obter a minha felicidade a partir da ‘’experiência da felicidade’’ e quando não a estava a experienciar, havia algo de errado que necessitava ser arranjado. Havia um problema.

Acredito que a busca da felicidade não é de todo errada, de facto é o que nos move a todos, mas eu descobri que andava à procura dela no sítios errados. Descobri que muitas das minhas ações não eram genuínas, da pessoa que quero ser. Acho que o meu coração aspirava uma vida ‘espiritual’ mais profunda. Sempre me contraí com esta palavra e este tipo de vida porque sempre achei que as pessoas espirituais eram pessoas em constante procura, pessoas que não existiam neste mundo, pessoas superiores que se ocupam apenas delas próprias. Esta ideia impediu-me de explorar mais fundo a espiritualidade.

Em 2015, o meu namorado e eu partimos numa viagem com uma auto-caravana VW. Não tínhamos um plano, mas sabíamos que queríamos deixar o nosso porto seguro e ver como outras pessoas viviam as suas vidas mais perto da natureza. Fomos a vários lugares fazer voluntariado mas logo acabamos no Projecto Vida Desperta, fizemos um retiro e ficamos por vários meses. A minha experiência é que tudo o que aprendi aqui foi direitinho de encontro ao meu coração. Eu pude por de lado todas as minhas ideias acerca de espiritualidade e seguir o desejo mais profundo do meu coração. Muito aconteceu entretanto, incluindo a minha experiência de vida mais profunda e empoderadora: dar à luz à minha filha Isa Robin, em casa e de uma forma natural.

A minha vida desde então tem sido uma constante libertação de todas as ideias acerca de como a minha vida deveria ser e tenho seguido o fluxo para ver onde a vida nos leva. Quisemos voltar a Portugal a este Projecto e conhecemos o Ricardo e a Teresa com quem partilhamos a mesma visão, eles têm crianças, alguma terra e querem criar uma comunidade familiar. Tudo combinava e nós decidimos experimentar viver juntos e ver se queremos criar algo em conjunto.

Então é aqui que estou agora, descobrindo dia a dia o que quero e através do Projecto perceber a essência da vida. Espero poder encorajar outras pessoas a também deixarem a sua zona de conforto, porque estar a salvo não tem nada a ver com o sítio onde nos encontramos, porque o que tenho aprendido é que não temos controlo nenhum sobre as nossas vidas, de alguma forma nunca estamos ‘’a salvo’’. Mas também, de outra forma, estamos sempre a salvo se estivermos enraizados em nós mesmos e na crença de que tudo já é inevitavelmente bom.

 


‘When a great ship is in harbor and moored, it is safe, there can be no doubt. But that is not what great ships are built for.’

For 28 years my safe harbor was the town of The Hague in Holland. A town that I still love very much and that includes many of the things I like; a beautiful beach, great cultural venues and events, great place to ride my bike, lots of friends and a part of my family, an alternative movement towards a more sustainable and transitional lifestyle, lots of organic shops and I had a nice apartment close to the beach. My work was also situated around this town. I worked for education in a theatre and I created lots of projects around a sustainable coast for my work at an environmental organization. I went to theatre and writing classes and love to be creative in many ways.

So although my life was rich in many ways, looking back I believe there was always some underlying tension, an idea that something was not quit right, something was missing. An idea that ‘I am not good enough’ and I have to search for happiness and good experiences to make myself a ‘good person’. By good I don’t mean ‘honest’ but someone that is self-assured about what she is doing, that has a ‘great’ life and does things that people can look up to. I have always tried to get my happiness from ‘the experience of happiness’ and when I was not experiencing it, that there was something wrong that had to be fixed. There was a problem. I think the search for happiness is not wrong at all, in fact it drives us all, but I found out I was looking for it in the wrong places. I found out a lot of my actions where not genuine to the person I really want to be. I think that my heart was yearning for a deeper ‘spiritual’ life. I have always contracted with this word and this kind of life because I had an idea that spiritual people where just seekers, where not really in this world, where superior and only bizzy with themselves. This idea kept me from going deeper into spirituality.

In 2015 my boyfriend and me went on a journey with an old VW campervan. We did not really have a plan, but we did know we wanted to sail from our safe harbor and see how people where living a different lifes more close to nature. We went to several places to volunteer but soon ended up at The Awakened Life Project, doing a retreat and then staying for a couple of months. My experience was that everything that I learned here was spot-on in my heart. I could drop all my ideas about spirituality and I went with my hearts true longing. A lot has happened since then, including the most profound and empowering experience in my life: giving birth in a natural way at home to my daughter Isa Robin.

My life since then has been all about letting go of ideas about how I think my life should be and follow the flow and see where life is taking us. We wanted to come back to Portugal to this project and we met Ricardo and Teresa who share the same views, have children and a piece of land and wanting to start a family community. It all fitted together and we decided to experience living with them and seeing if we want to build up something together.

So this is where I am now, discovering day to day what we want and trough the project what this life is all about. I hope I can encourage other people to also sail out of there comfort zone, because being safe has really nothing to do with staying where we are because I learned we actually have no control over our lives, in a way we are never ‘safe’. And then, in another way we are always safe if we are grounded in ourselves and the belief that everything is inevitably already good.