Ricardo Gonçalves

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Ricardo Gonçalves – Pai em contínua transição para uma vida mais Consciente, Integral e Sustentável.

Quem sou eu realmente? E porque estou eu aqui, neste corpo a viver esta vida? Como posso eu viver plenamente? E o que poderei fazer para preencher o vazio que sinto dentro de mim?

Estas foram algumas das perguntas que fiz a mim próprio há alguns anos, quando lidava com uma separação, e que me fez sentir verdadeiramente só pela primeira vez. Na altura possuía tudo aquilo que pensava ser mais importante para mim e vivia uma vida boa, tranquila e com muito conforto, mas nada disso foi suficiente para apaziguar o vazio que senti. Apesar de ter sido difícil lidar com essa angustia, hoje percebo que me deu o impulso necessário para eu procurar uma resposta a todas aquelas perguntas. Comecei por fazê-lo em algumas das religiões e tradições mais antigas (e cada vez mais reconheço que todas têm a sua base de verdade) e acabei por me identificar muito com o budismo, que me mostrou a valiosa prática da meditação. Aos poucos, sentia que o Universo me ia trazendo as ferramentas que eu precisava, mas ao mesmo tempo comecei também a alimentar muitas ideias do que significa viver uma vida espiritual. Daí até querer abdicar do mundo material e sair do país para um Ashram ou mosteiro distante foi um curto passo, só que algo muito maior tinha outros planos para mim…

Quando encontrei o sítio do Projecto Vida Desperta na internet, apenas o nome foi suficiente para despertar a minha curiosidade! Depois de ler a visão e os testemunhos dos seus criadores e voluntários, não descansei até conhecer a sua realidade. Desde então, o contacto com a Quinta da Mizarela e os seus residentes, deu-me força, inspiração e coragem para tomar a tão adiada decisão de me despedir e começar uma nova vida. No início não foi fácil descobrir qual o caminho que queria seguir, pois uma vida inteira vivida na cidade, repetindo rotinas e procurando satisfazer as expectativas da sociedade, não me preparou para uma mudança de consciência e de paradigma de vida. Mas à medida que eu e a minha companheira Teresa (hoje minha esposa) nos fomos permitindo ouvir mais os nossos corações, aos poucos esse caminho foi-se tornando cada vez mais claro.

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Hoje vivo no campo, com a Teresa, o nosso filho Miguel de 3 anos e a Clara nascida em Março. Juntos estamos a reconstruir a nossa casa com as nossas próprias mãos, a fazer as primeiras experiências na horta e pomar e a contribuir para a regeneração da floresta circundante. A realidade que vivo todos os dias é bem diferente daquela que conheci durante mais de 30 anos na cidade, 11 deles a trabalhar num laboratório de genética, mas nem por um momento senti nostalgia ou remorso por ter escolhido esta mudança. Após um período relaxado de reflexão, eu e a Teresa escolhemos o campo, particularmente na região centro perto da Quinta da Mizarela, pois sentimos que seria o local ideal para educar o nosso filho e co-criar uma nova cultura, juntamente com um número crescente de pessoas, portugueses e estrangeiros, que procuram uma vida mais consciente. Cada vez mais reconheço que a saída da cidade não foi um escape, apesar de hoje em dia me ser difícil lá viver mais do que apenas uns dias. A realidade da vida no campo é bem diferente e é chocante perceber que em toda a aldeia junto à qual agora vivemos habitam menos pessoas do que num só prédio de média dimensão numa cidade! Sem dúvida que a nossa escolha foi ponderada para podermos levar uma vida mais Consciente, Simples e Sustentável.

Na minha própria experiência a mudança de casa, de hábitos e rotinas diárias, não é de todo o maior desafio. Difícil mesmo, é o processo de transformar a forma como me vejo a mim próprio e ao que me rodeia. Perceber que uma parte de mim insiste continuamente na limitação, medo e separação, e querer ir para além de todas as ideias fixas e preconceitos, tem o potencial libertador que me permite ser uma expressão autêntica da Consciência intemporal e absoluta, e é sem dúvida o melhor caminho para participar activamente na própria Evolução. O forte compromisso com o grupo de homens tem sido uma experiência extremamente valiosa para o conhecimento da condição humana, permitindo-me explorar num ambiente de enorme transparência e humildade, o que significa ser um homem no século XXI. Tanto do que assumo como sendo pessoal, resulta de milhares de anos de evolução e da repetição contínua de pensamentos, palavras e acções, muitas das vezes inconscientemente. Por isso, assumir total responsabilidade por todas as minhas escolhas, conscientemente, tem também um enorme poder transformador e libertador.

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O facto de ser co-criador deste movimento chamado Projecto Vida Desperta, significa não só que quero viver uma vida plena e desperta, mas também que quero contribuir activamente para uma tão esperada mudança de consciência em Portugal e no Mundo. Na prática, significa que cada vez mais quero viver de acordo com tudo aquilo que sei ser verdadeiro pela minha própria experiência, dando prioridade à minha própria evolução e apoiando o melhor da Vida. Significa também que estou cada vez mais disponível para ser um veículo para que o Processo Universal ocorra através de mim, conscientemente, mesmo que muitas vezes isso implique sair da minha zona de conforto e ir muito para além das minhas ideias e limitações. Reconheço a importância de todas aquelas pessoas que tiveram a coragem de dar a cara e partilhar as suas experiências e ideias evolucionárias, pois foram elas que me deram a coragem para mudar e estar onde estou hoje. Por isso, cada vez mais quero quebrar o condicionamento bem português de “passar despercebido” e apoiar todos aqueles que quiserem mudar, mas que tal como eu em tempos sentem o receio e as dúvidas da mudança.

Estou profundamente agradecido ao Pete e à Cynthia, por serem uma expressão do que é possível e por sempre acreditarem e apoiarem a melhor parte em mim; à minha querida esposa Teresa Leite, pelo apoio continuo, por querer explorar comigo para além dos nossos limites imaginados, por dar à luz o Miguel e a Clara e por cuidar deles de uma forma tão bonita; aos meus pais, pelo seu incansável apoio e amor incondicional, pela sua curiosidade e por, à sua maneira, estarem também a acompanhar toda esta mudança; e também a tod@s os irmãos e irmãs, que não param de me surpreender e inspirar, e por fazerem desta maravilhosa família desperta um céu vivo na terra 🙂