O poder da Vulnerabilidade!

Ultimamente a Clara tem vivido momentos de grande intensidade e desafio! Uma destas noites ela “brindou-nos” com mais um momento intenso de frustração e gritaria! Eu tinha-me atrasado na preparação do jantar, ela estava cansada e quando não conseguiu o que queria, lá começou mais um desafio para todos, tentar jantar ao som de um enorme berreiro…

Não sei se pelo facto de ainda falar muito pouco e nem sempre se conseguir expressar ou fazer entender, a verdade é que têm sido mais frequentes estas demonstrações de frustração, que por vezes nos deixam sem saber muito bem o que fazer. E se há alturas em que estamos num estado de espírito que nos permite lidar com a situação de uma forma leve, por vezes só me apetece “sair deste filme” que mais parece de terror! Mas claro, o impulso para “resolver a situação” surge imediatamente, pois todos acreditamos que um pai e uma mãe devem saber como acalmar uma criança e restabelecer o “equilíbrio”. Mas, será que sabemos sempre? E se não o conseguirmos, estará algo de errado connosco? Será que se não o fizer estarei a falhar redondamente enquanto pai?

Acho que naquela noite tudo isto estava bem presente em mim! Todos demos espaço para que a Clara libertasse as suas frustrações, a gritar e a espernear no chão, tentando por vezes agredir a mãe, que era o objecto da sua revolta. Mostramos várias vezes que estávamos disponíveis para pegar nela e a consolar, mas cada tentativa apenas agravava ainda mais a revolta e a gritaria. Enfim, a muito custo para os nossos ouvidos, especialmente para o Miguel, lá fomos jantando. Quando ela acalmou e se interessou pela comida, lá se sentou ao colo da mãe e começou a agir como se nada se tivesse passado.

Um pouco depois, quando os 3 se preparavam para cantar uma música de agradecimento pela refeição, eu estava já de pé a lavar alguma loiça, mas a Clara não queria fazê-lo sem mim à mesa. Contrariado, lá me sentei e comecei também a cantar. Ao fazê-lo, apercebi-me da imensa tristeza e frustração que estava presente agora em mim. Senti uma enorme vontade de chorar, mas reprimi esse impulso. No entanto, deixei de cantar e no final da canção levantei-me para continuar a minha tarefa de limpeza. Foi então que a Teresa me sugeriu que expressasse o que estava a sentir… “Para quê, a Clara não vai entender!” respondi eu. “Mas está aqui mais alguém capaz de entender…” respondeu-me ela. Com alguma resistência, pois nós homens não estamos muito habituados a mostrar a nossa vulnerabilidade, lá disse que me sentia triste, frustrado e desanimado pelo que tinha acabado de acontecer. A Clara olhava-me com um sorriso de quem vive sempre no momento presente e já nem se lembrava do que tinha acabado de acontecer. Quanto ao Miguel, levantou-se e veio ter comigo para me dar um abraço… Depois seguiu-se a Clara que também se quis juntar ao irmão em me abraçar. “Ok, rendo-me!” pensei eu. A seguir aproximei-me da Teresa para a abraçar também e demos todos um abraço a 4.

Ao permitir-me expressar o que sentia, não só me “libertei” das emoções que me contraíam, como permiti que quem estava comigo sentisse e expressasse empatia.  Estes momentos são capazes de mudar e curar tudo! Mas quão raros são? Quantas vezes nos entregamos verdadeiramente às nossas emoções e nos permitimos expressar com toda a sensibilidade e vulnerabilidade “o que nos vai na alma”? Sei bem que a transparência, vulnerabilidade e espontaneidade são não só uma expressão da nossa liberdade inerente, mas são também um convite a essa expressão livre nos outros! Então porque não o faço mais vezes? Porque não o fazemos todos?

Reconheço que me contenho muito na expressão dos meus sentimentos e emoções. Apesar de me ter libertado já de uma grande parte do controlo e medo que durante tanto tempo condicionaram a minha vida, ainda mantenho uma tensão e preocupação em ser aquele que providencia para a família. Coloco muita da minha atenção naquilo que acredito que precisa de ser feito exteriormente, para que tudo funcione e esteja em ordem, mas continuo a negligenciar ainda muitas vezes as necessidades interiores, não só as minhas, mas também as dos que me rodeiam. E isso pode ser uma forma de evitar a experiência da dor e do sofrimento, sejam quais forem as suas origens. Compreendo que ao manter todas as ideias sobre mim, de quem sou e de como devo agir, estou a criar separação em relação ao que realmente sou. E quando eu não me limito a repetir os hábitos, a cada momento posso ser uma expressão nova e espontânea de quem sou. E é isso que realmente significa ser livre, reconhecer a possibilidade de criar algo de novo em cada instante e de expressar aquilo que sou, em toda a plenitude e potencial.

Esta é uma das maiores lições que posso aprender todos os dias com os meus filhos, a viver o Presente e a permitir-me expressar-me livremente. E claro que há uma sensibilidade que é importante desenvolver com o crescimento e a maturidade, pois acredito ser importante não ser 100% transparente a todo o momento, tal como o faz uma criança. Mas isso não impede que seja verdadeiro, desde que o faça sempre com um cuidado pelo todo. Por isso hoje quero abraçar cada vez mais o que significa ser humano e quero viver uma vida mais livre, sem excluir ou reprimir as minhas emoções e sentimentos, fazendo um maior esforço para as compreender e aceitar. Mas para isso tenho que as viver plenamente, sentí-las de uma forma “nua e crua”, as que trazem alegria e as que trazem sofrimento, sem preferir nem evitar nada. E tenho consciência que ao fazê-lo não estou apenas a libertar-me a mim próprio, estou também a dar um exemplo aos meus filhos e a incentivá-los a nunca deixarem de o fazer…
Grato por me “escutarem” 🙂
Ricardo

P.S. Aproveito para vos deixar um vídeo de uma pessoa que me tem inspirado muito. Espero que gostem!

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