Do outro lado de uma catástrofe, reside sempre um infinito potencial!

Pouco tempo depois dos incêndios do passado 15 de Outubro, que dizimaram enormes áreas em diferentes regiões de Portugal (inclusive a região onde moramos), vi-me confrontado com a necessidade de reunir mais lenha para o Inverno. Uma vez que toda a lenha que já havíamos reunido estava agora reduzida a cinzas (mais de 6m cúbicos de lenha rachada e outro tanto para rachar), resolvi começar a cortar algumas das árvores carbonizadas, que visivelmente não iriam sobreviver.

Esta tarefa foi particularmente dolorosa com as oliveiras, pois algumas árvores tinham já dezenas de anos e a cada 2 anos nos davam bons frutos, com os quais não só produzíamos o nosso próprio azeite, como também curtíamos algumas azeitonas para comer. Foi com um sabor agridoce que cortava cada árvore, cada ramo. Por um lado estava a reunir a tão necessária lenha para o Inverno, mas por outro testemunhava a morte de uma tão bela e nobre fonte de vida e alimento.

Esta foto foi tirada hoje. Felizmente o verde já cobre a maior parte do solo que na altura ficou todo preto, mas infelizmente muitas das árvores não conseguiram sobreviver…

A certa altura comecei a reparar com mais atenção nos belos contornos dos ramos de oliveira, agora completamente queimados pelo fogo! Lembro-me de ter pensado: “Será que quero mesmo queimar pedaços de madeira tão belos?” Apesar da necessidade lenha para o Inverno, reservei bastantes pedaços que me pareciam ter potencial para criar algo que talvez pudesse ter um outro fim. Durante os últimos meses a ideia voltava a surgir de vez em quando, mas a falta de motivação e energia para fazer algo para além do básico e essencial, ia sempre adiando o início deste projecto. Até que o convite para o casamento de um casal amigo no passado fim-de-semana, me deu o impulso que faltava para começar. Sem grandes ferramentas, mas com uma grande curiosidade de experimentar e descobrir o que era possível, entreguei-me finalmente às maravilhas e desafios do processo criativo.

Já tinha uma ideia do que queria fazer (um suporte para velas pequenas) e lá fui à procura de um ramo que me parecesse o “certo”. Tenho pena de não o ter fotografado em bruto, pois assim a transformação tornava-se bem mais visível, mas o caminho faz-se caminhando e já estou a aprender muito neste curto espaço de tempo 🙂

O engraçado deste ramo, foi que dadas as suas características, poderia ser usado em várias posições diferentes. No início foi-me difícil escolher como fazer, mas aos poucos fui observando e ele foi-se “revelando” para mim! E quase sem querer, consegui criar um suporte de velas e/ou incenso que pode assumir diferentes formas…

Este processo deu-me tanto gozo, que penso ter encontrado algo a que quero dedicar mais do meu tempo! O facto de poder criar arte, pela primeira vez fascina-me! Especialmente pelo contexto na qual a estou a desenvolver, usando madeira que foi queimada pelos fogos, que transformaram a vida de tanta gente. Deste modo, pretendo deixar sempre uma parte queimada, como que uma memória do que aconteceu, para nos lembrar a todos que na vida nada é eterno e que num instante podemos perder muita coisa.

Mas ao mesmo tempo, o que num momento nos pode parecer um desastre, mais tarde pode também revelar-se numa benção. Faz parte do processo de crescer e ganhar maturidade, aprender a olhar para cada evento de uma perspectiva maior, mais completa e não tão centrada no nosso pequeno eu…

Aqui ficam 3 pedaços em bruto, nos quais já comecei a trabalhar. Tenho uma ideia do que pretendo fazer com eles, mas quero deixar sempre espaço para ser surpreendido pelo que “quer” surgir.

Alguém tem alguma ideia do que vai sair daqui? Mantenham-se atentos, em breve vou colocar fotos dos produtos acabados 🙂

E se se sentirem inspirad@s a apoiar este projecto, com ideias, ferramentas ou mesmo apoio financeiro, expressem-no por favor, eu irei agradecer todo e qualquer input e sugestão.

Abraço grande com gratidão,

Ricardo

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